Vamos falar de um assunto muito importante na sociedade, um assunto que é absolutamente nada nicho. Que assunto é esse tão importante, Duarte?
É “roupas de betos”.
Não são roupas usadas por betos. Quer dizer, algumas são, mas estou a refirir-me a roupas, e marcas de roupa, lançadas por betos.
Regra geral são lançadas por betos alternos, que, para quem não sabe o que são, são ultra betos, mas fingem que não são betos, fingem que são artísticos.
Vou pintar um quadro de palavras para contexto visual. Os betos alternos usam calças que acabam uns bons centímetros antes do tornozelo, como quem vai apanhar mexilhão. Dão muito uso a meias brancas com mocassins pretos, ou Birkenstock (tipo Salvador da Humanidade).
Padecem de excesso de “tote bag”, que é só um nome cool para aquele saquinho de pano, usam bigode, mas não usam patilhas. Os Betos alternos parecem sofrer de alguma aversão à patilha.
Além disto, têm sempre projectos artísticos. Projectos esses, claramente cheios de noção.
“Ahhh lembraste-te da Carlota? Lembras, sim, mas não estás a ver. A Cocarlota!
Não era Charlotte… era a Cheira A lot! Sabes?
Bom, o que interessa é que ela agora quer lançar uma marca de roupa.”
Na verdade, os projectos podem ser mais coisas: esculturas, quadros, etc. mas, na minha experiência, o mais comum é serem roupas.
Recentemente apanhei um lançamento de uma dessas lojas num espaço da moda, em Lisboa, e aproveitei e dei uma espreitadela… até podia encontrar qualquer coisa gira.
Vi, por exemplo, uma t-shirt branca, com um bolso no peito, e um bonequinho bordado nesse mesmo bolso. Custava apenas 210 euros, porque tinha sido escolhida e tocada pelo designer, um BETO ALTERNO. Era uma peça especial. Especialmente cara, por nenhum motivo. Quer dizer, porque o vício da Dona Branca é carote. E é importante conseguir “breakeven” nas primeiras 24 horas. Porque o beto alterno quer conseguir ser independente com o dinheiro dos pais.
Hoje em dia acredito que se calhar uma pessoa nem é bem beta, se não lançar uma marca de roupa. Antigamente só se era realmente classe alta quando tínhamos uma crise de GOTA. Agora, para seres classe alta, tens que lançar uma marca de roupa, e até se pode chamar GOTA, é bom nome.
Tenho andado a pensar e creio que este texto é só inveja minha, de não ser classe alta. Por esse motivo e para colmatar essa lacuna, decidi lançar uma marca de roupa.
Aliás, já ando a pensar nisso há imenso tempo. Pelo menos desde que comecei a escrever este texto. Até já tenho nome e tudo, veio-me numa meditação na praia, ou qualquer coisa assim.
Vi uma palavra a pairar no cosmos, e essa palavra foi: Que Seria. (eu sei que são duas) Mas escreve-se QUESERIA, tudo junto. E depois tiramos algum excesso e fica:
QSRIA.
BOOM! Génio!
Por exemplo:
Uns óculos que só têm uma haste para não os estragares quando dás um beijinho.
(então e se deres dois beijinhos?) PFFFFFTTTTT Dois beijinhos?
QSRIA!
Preço: 450 €
Outro Exemplo:
As jardineiras estão na moda, mas o conforto também é importante.
O nosso designer, que sou só eu, mas de gola alta, criou as Jardineiras de fato de treino. Dobro do conforto, nenhuma atracção.
“O quê? Mas querem que eu me vista de fato como vocês? Eu sou artista. Um fato?”
QSRIA!
Preço: 1300 €
Se curtem a ideia, venham ao lançamento, vai ser atrás de uma fábrica de bips da coca-cola, que está abandonada, em Marvila. Os capitão fausto vão tocar e depois temos after-party.
Já a after-party vai ser num antigo toldo da comporta que pusemos na praça das flores. Quem vai meter som é o DJ Squeak-squeak, que é um amigo da nossa família. Chama-se Martim, mas deu tanto em ácidos que fritou e agora acha que é o Rato Mickey. Ele nem tem mesa de mistura, faz só os gestos e nós imaginamos o som. É um conceito.
After-after-party é num copo de matcha gigante, as paredes e o chão estão todos forrados com coletes fofinhos de betos, representa o anti-sistema e também é bom, porque se cairmos não nos magoamos.
O segurança é Fumas, o primo do jubas que tem a melhor erva deste lado do elevador social.
Fico à vossa espera.
A password é QSRIA
Ouve aqui todos os episódios no Podcast Dudas de un Hombre.



