Se já conduziste no Reino Unido, sabes que a experiência pode ser desconcertante: o volante está à direita e circula-se pela esquerda. Ser um simples peão, no Reino Unido, já uma grande aventura.

Afinal, porque é que os britânicos conduzem “do lado errado”? A resposta está enraizada na história medieval, na tradição militar e até na etiqueta da nobreza.


A espada estava na mão direita

A origem da condução à esquerda está na Idade Média. A maioria das pessoas era destra, e ao circular pela esquerda da estrada, mantinham a mão direita livre para cumprimentar ou, em caso de necessidade, para desembainhar a espada. Esta posição oferecia uma vantagem tática em confrontos e era considerada mais segura em tempos de instabilidade

Alguns historiadores apontam que a tradição de circular à esquerda pode ter raízes ainda mais antigas, na Roma Antiga. Registos arqueológicos mostram que os romanos também preferiam circular pela esquerda em estradas movimentadas, especialmente com carroças e cavalos e um dos motivos seria o mesmo, os punhais, gládios e adagas estavam na mão direita.


Só depois da Revolução francesa é que se mudou de lado

A condução à direita tornou-se popular na Europa continental apenas após a Revolução Francesa. Napoleão Bonaparte - que era canhoto - impôs a circulação à direita nos territórios conquistados, em parte para contrariar a tradição aristocrática de circular à esquerda. Esta mudança espalhou-se por grande parte da Europa, mas o Reino Unido - que nunca foi conquistado por Napoleão - manteve a sua tradição.

A condução à esquerda foi oficialmente estabelecida no Reino Unido, com o Highway Act de 1835, que obrigava os veículos a circular pela esquerda nas estradas públicas. Esta lei consolidou uma prática já comum e foi posteriormente adotada por muitas colónias britânicas, como a Índia, Austrália, África do Sul e Japão (que se inspirou no modelo britânico para modernizar o seu sistema rodoviário no século XIX)

Atualmente, cerca de 35% da população mundial ainda conduz à esquerda. Além do Reino Unido, países como Irlanda, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Índia e África do Sul mantêm esta prática. A mudança para a direita é possível, mas logisticamente complexa e dispendiosa, como demonstrou a Suécia em 1967, quando fez a transição num único dia, num processo conhecido como Dagen H.


A caótica experiência da Suécia

O “Dagen H” (Dia H, em sueco), também conhecido como “Högertrafikomläggningen” (mudança do tráfego para a direita), foi o dia em que a Suécia alterou oficialmente a regra de circulação, passando da condução pela esquerda para a condução pela direita. Esta mudança histórica ocorreu a 3 de setembro de 1967.

A letra “H” representa Högertrafik, que significa “tráfego pela direita” em sueco. A decisão foi tomada para alinhar a Suécia com os países vizinhos, como a Noruega e a Finlândia, que já conduziam pela direita, facilitando assim o tráfego transfronteiriço e aumentando a segurança rodoviária.



Conduzir à esquerda no Reino Unido não é um capricho, mas sim o resultado de séculos de tradição, segurança e identidade cultural.

Embora diferente do padrão europeu, esta prática continua a fazer sentido para milhões de condutores em todo o mundo.

Da próxima vez que estiveres ao volante, em Londres, ou mesmo apenas a atravessar a rua como peão, lembra-te que estás a seguir uma tradição com mais de mil anos.