Hoje em dia, o telemóvel é quase uma extensão do corpo. Usamos o smartphone para tudo: falar com amigos, pagar contas, ver notícias, procurar receitas, controlar hábitos, ouvir música ou simplesmente passar o tempo. O problema? O uso excessivo está, cada vez mais, ligado a ansiedade, depressão e sensação de vazio – não só em jovens, mas também em adultos.


A ironia é que nunca estamos "sem nada para fazer". Mas será isso realmente positivo? Segundo Arthur C. Brooks, psicólogo de Harvard e investigador de felicidade, a resposta é clara: precisamos de ficar aborrecidos.

O lado bom do tédio
Brooks explica que o tédio ativa uma parte do cérebro chamada "default mode network". É nesse estado que surgem reflexões mais profundas: propósito de vida, significado, questões existenciais. No entanto, em vez de lidar com esses pensamentos, recorremos ao telemóvel para escapar. O resultado? Mais distração, menos clareza mental e uma sensação crescente de insatisfação.

Num estudo curioso, algumas pessoas preferiram levar um choque elétrico a ficar sozinhas com os seus pensamentos durante 15 minutos. Este desconforto mostra o quanto evitamos o silêncio interior.

Porque é que o telemóvel alimenta a ansiedade?
Sempre que sentimos um momento de vazio, desbloqueamos o ecrã. Esse ciclo cria o que Brooks chama de "doom loop of meaning": quanto mais evitamos o tédio, mais difícil se torna encontrar propósito. É aqui que surgem sintomas de ansiedade, depressão e desmotivação.

Como quebrar o ciclo: dicas práticas
Brooks partilha três protocolos simples para reduzir o vício no telemóvel:

- Não dormir com o telemóvel. Criar uma regra de "sem ecrãs" à noite melhora o descanso e reduz a dependência;
- Sem telemóveis à mesa. As refeições devem ser momentos de conexão com quem está presente;
- Jejuns digitais regulares. Fazer pausas das redes sociais e de dispositivos ajuda a recuperar clareza mental;
- Pode parecer difícil no início - o cérebro pede estímulos. Mas, após algum tempo, a sensação de leveza e bem-estar compensa.

Aprender a valorizar o tédio
Ficar entediado pode ser visto como um "treino mental". Se também vais ao ginásio para exercitar o corpo, também precisas do tédio para exercitar a mente. Ao deixares espaço para o silêncio, surgem ideias criativas, maior atenção às relações e até mais satisfação no trabalho. O segredo é começar com pequenos momentos: ir ao ginásio sem auscultadores, não ligar logo a tv quando chegas a casa ou simplesmente deixar o telemóvel em casa durante uma caminhada.

No final, o que parece desconforto é, na verdade, uma oportunidade. O tédio ajuda-nos a refletir, a encontrar propósito e, acima de tudo, a sermos mais felizes.