Quantas vezes já ouvimos que devemos "viver o momento"? Filósofos, especialistas em meditação e bestsellers dedicados à saúde mental repetem este conselho ad nauseam. De facto, a ideia parece perfeita para reduzir ansiedade, stress ou depressão. Mas será que é realmente possível?
Segundo Caroline Leaf, neurocientista, Ph.D. e BSc, este conceito é, na prática, enganador. Numa entrevista para o podcast "Mindbodygreen", Leaf sugere que precisamos de "repensar o tempo como uma narrativa linear". Cada experiência passada influencia o presente e molda o futuro. Assim, viver exclusivamente no "agora" é mais uma ilusão do que uma realidade prática.
"Temos uma narrativa, uma história. Respondemos ao momento presente por causa de tudo o que já vivemos. Passamos entre metade e três quartos do dia a viajar mentalmente entre passado, presente e futuro", explica Leaf.
Ou seja, embora seja útil procurar momentos de atenção plena, não podemos ignorar o peso do passado nem a incerteza do futuro, pois eles informam cada instante da nossa vida.
A ideia é reforçada por Olivia Giacomo, colaboradora do "Mindbodygreen", que descreve a mente inconsciente como uma "floresta infinita" repleta de memórias. Estas memórias existem imediatamente no passado e têm o poder de influenciar o futuro, ajudando-nos a antecipar possibilidades e a aprender com experiências anteriores.
Nem todos concordam, no entanto. Para Joseph Oliver, psicólogo clínico e professor na University College London, em entrevista à BBC, a prática de mindfulness permite treinar a mente para focar no presente, embora reconheça que há sempre um entrelaçamento entre passado, presente e futuro.
Como lidar com pensamentos sobre passado e futuro
Leaf sugere métodos concretos para lidar com esta "sobreposição temporal":
1. Recolher informação - Explorar profundamente os pensamentos e sentimentos através de respiração consciente e meditação;
2. Refletir - Investigar a origem desses pensamentos e emoções, identificando padrões e gatilhos;
3. Registar no diário - Escrever à mão ativa áreas específicas do cérebro e ajuda a organizar sentimentos;
4. Reformular - Tentar observar as emoções de forma mais objetiva, como se fossem de outra pessoa, para reduzir o impacto negativo;
5. Agir - Implementar pequenas ações para interromper ciclos de pensamento destrutivos e afirmar que certos pensamentos não nos servem;
No fundo, a lição é clara: viver no presente não significa ignorar o passado ou o futuro. Cada experiência que já tivemos e cada expectativa que nutrimos moldam quem somos e como reagimos ao mundo. Em vez de perseguir um "agora" absoluto, podemos focar em cultivar atenção consciente, compreender os nossos pensamentos e emoções, e usar esse conhecimento para agir de forma mais equilibrada.