Durante muito tempo, crescer significava aprender devagarinho a usar o corpo, os objetos e o mundo à nossa volta. Folhear livros, calçar os sapatos, comer sozinho ou pedir para ir à casa de banho faziam parte do pacote básico da infância, muito antes do primeiro dia de escola.


Hoje, esse percurso está a mudar. E não necessariamente para melhor.

Com tablets nas mãos antes de lápis e com ecrãs a substituir brincadeiras, cada vez mais crianças chegam à escola com dificuldades em tarefas simples do dia-a-dia. O que era intuitivo está a tornar-se um desafio.

Crianças usam livros como se fossem telemóveis


E no Reino Unido, os números estão a gerar sinais de alerta. Um estudo recente junto de professores do ensino básico, citado pela Sky News, revela que quase um terço das crianças que começou a escola tentou interagir com livros como se fossem telemóveis, a tocar e a deslizar os dedos pelas páginas, à espera que algo acontecesse no ecrã invisível. Para muitas, o gesto de virar uma página já não é automático.

Mas não é só na leitura que surgem dificuldades. Uma parte significativa das crianças começa o primeiro ano sem conseguir comer sozinha, beber de um copo sem ajuda ou ir à casa de banho de forma independente. Competências básicas de autonomia infantil estão a desaparecer e os professores admitem perder várias horas por dia a lidar com situações que antes pertenciam à esfera familiar.

O uso excessivo de ecrãs é apontado como uma das principais causas. Menos tempo a brincar, menos interação real, menos oportunidades para desenvolver coordenação, linguagem e autonomia.

Ao mesmo tempo, muitos pais acreditam que os filhos estão preparados para a escola, uma perceção que contrasta com a realidade sentida nas salas de aula.

No Reino Unido, estima-se que mais de um terço das crianças chega ao ensino básico sem estar verdadeiramente pronta para os desafios mais simples da rotina escolar. Um problema que se agrava em algumas regiões e que já está a ser descrito como uma crise no desenvolvimento infantil.

O governo britânico tem reforçado o investimento na educação pré-escolar e no apoio às famílias, mas especialistas alertam: sem mudanças nos hábitos digitais e sem mais apoio nos primeiros anos de vida, as dificuldades vão continuar a crescer.