O essencial:

A temperatura mais alta alguma vez registada em Portugal continental foi de 47,3 ºC, na Amareleja, no concelho de Moura, a 1 de agosto de 2003. O dado consta nos extremos climatológicos oficiais do IPMA, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera.

Mas há uma pergunta que vale a pena fazer, sobretudo em dias de calor extremo: Portugal está agora mais quente do que antes ou sempre tivemos verões assim?

A resposta não cabe num simples “sim” ou “não”. É verdade que já houve episódios de calor muito intenso no século XX. Mas também é verdade que, nos últimos anos, os valores extremos se têm tornado mais frequentes e persistentes.


O recorde continua a ser da Amareleja

O número impressiona: 47,3 ºC.

Foi esta a temperatura máxima registada na Amareleja, no distrito de Beja, a 1 de agosto de 2003. Segundo o IPMA, continua a ser o maior valor de temperatura máxima do ar alguma vez observado em Portugal continental.

Ou seja, apesar das vagas de calor recentes e dos muitos avisos meteorológicos dos últimos anos, o recorde absoluto nacional ainda pertence ao verão de 2003.

E quem se lembra desse ano sabe: não foi só calor. Foi aquele calor que parecia sair do chão, das paredes, dos bancos do carro e, provavelmente, até das ideias.


Os verões que fizeram Portugal ferver, segundo o IPMA

  • 1944 - uma das primeiras grandes vagas de calor documentadas.
  • 1981 - vários máximos acima dos 44 ºC.
  • 1991 - novo episódio muito intenso.
  • 1995 - Amareleja chega aos 46,5 ºC.
  • 2003 - recorde absoluto. Amareleja com 47,3 ºC
  • 2017 - nova vaga extrema.
  • 2018 - muitas estações batem recordes locais.
  • 2022 - Pinhão chega aos 47,0 ºC.
  • 2025 - verão mais quente desde 1931.


Então porque parece que agora está sempre mais calor?

Porque uma coisa é bater um recorde num só dia. Outra é ter muitos dias seguidos de temperaturas elevadas, noites quentes e verões cada vez mais longos.

É aqui que os dados ajudam a perceber melhor o que se passa. O IPMA indica que 2022 foi o ano mais quente em Portugal continental desde 1931, com a temperatura média anual 1,38 ºC acima do valor normal de 1971-2000.

Em 2023, o cenário manteve-se: foi o segundo ano mais quente em Portugal continental, apenas atrás de 2022.

E o IPMA assinalou ainda que os últimos quatro anos estão entre os cinco mais quentes de sempre em Portugal: 2022, 2023, 1997, 2024 e 2025.

Traduzindo: o recorde absoluto pode continuar em 2003, mas o padrão dos últimos anos mostra um país cada vez mais habituado a temperaturas muito acima do normal.


2022 ficou muito perto do recorde

Em julho de 2022, Portugal voltou a roçar valores históricos. No dia 14, a estação do Pinhão registou 47,0 ºC, um novo máximo para o mês de julho em Portugal continental, segundo o boletim climatológico do IPMA.

Ficou apenas três décimas abaixo do recorde nacional da Amareleja.

Nesse mesmo episódio, o IPMA referiu que foram ultrapassados anteriores máximos de temperatura em dezenas de estações meteorológicas, o que mostra que o calor não foi apenas intenso: foi muito espalhado pelo território.


E no século XX? Também houve verões extremos?

Sim. E este é um ponto importante para não pensarmos que “antigamente não havia calor”.

Havia. E muito.

O século XX teve vários episódios de temperaturas muito elevadas. Um dos exemplos mais marcantes é julho de 1995, quando a Amareleja registou 46,5 ºC, valor que durante anos foi referência para o mês de julho em Portugal continental. Esse máximo foi ultrapassado apenas em 2022, com os 47,0 ºC do Pinhão.

Também o ano de 1997 aparece entre os cinco anos mais quentes desde 1931, segundo a série climatológica do IPMA.

Ou seja, sim: Portugal já teve verões muito duros no século XX. A diferença está no facto de os anos mais recentes surgirem cada vez mais vezes no topo dos rankings de temperatura média.


O verão mais quente desde 1931

O IPMA classificou o verão de 2025 como o mais quente desde 1931 em Portugal continental. A temperatura média do ar foi de 23,51 ºC, 1,55 ºC acima do normal 1991-2020. Também a temperatura máxima média, 30,78 ºC, foi a mais alta desde 1931.

Isto ajuda a perceber a diferença entre “o dia mais quente” e “o verão mais quente”.

O dia mais quente continua a ser o da Amareleja, em 2003. Mas, quando olhamos para a média de uma estação inteira, os anos recentes ganham mais peso.


Resumo

A temperatura mais alta de sempre em Portugal continental foi de 47,3 ºC, registada na Amareleja, a 1 de agosto de 2003.

Mas isso não significa que o calor atual seja apenas “mais do mesmo”.

O século XX teve verões extremos, como 1995 e 1997, mas os dados do IPMA mostram que os últimos anos estão mais presentes entre os mais quentes desde que há registos organizados, iniciados em 1931.

No fundo, Portugal já conhecia o calor extremo. A diferença é que agora ele parece mais vezes.


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