O essencial
Enquanto a Noruega continua em prova no Mundial 2026, muitos portugueses olham para a seleção nórdica com alguma simpatia. Será por causa de Haaland? Talvez. Mas existe uma ligação muito mais antiga entre os dois países: o bacalhau.
Embora seja considerado um dos grandes símbolos da gastronomia portuguesa, a história do bacalhau começa muito antes das receitas de Natal ou das mais de mil e uma formas de o cozinhar.
A sua história começa muito mais a norte, nas costas geladas da Noruega, onde os vikings descobriram uma forma engenhosa de conservar peixe muito antes da invenção dos frigoríficos.
Daí até às mesas portuguesas passaram séculos de viagens, descobertas, comércio e tradição.
Muito antes de Portugal, já os vikings secavam bacalhau
Entre os séculos VIII e XI, os vikings já utilizavam um método simples, mas revolucionário, para conservar peixe.
Depois de capturado, o bacalhau era pendurado em estruturas de madeira junto à costa da Noruega, onde o frio, o vento e o ar seco retiravam lentamente a humidade. O resultado era um peixe seco naturalmente, sem necessidade de sal, conhecido como stockfish.
Esta técnica permitia conservar o alimento durante meses, tornando possível alimentar tripulações em longas viagens marítimas e enfrentar os rigorosos invernos escandinavos.
Segundo o Norwegian Seafood Council, este método acabou por transformar o bacalhau num dos produtos mais importantes da história da Noruega.
Como a Noruega transformou o bacalhau num produto conhecido em todo o mundo
A técnica criada pelos vikings foi evoluindo ao longo dos séculos até dar origem ao bacalhau salgado que hoje conhecemos.
A evolução do bacalhau da Noruega
- Século IX – Há registos de atividades organizadas de transformação de peixe na costa norueguesa, atribuídas ao comerciante holandês Yapes Ypess.
- Séculos X a XV – Os pescadores aperfeiçoam a secagem natural do bacalhau ao frio, permitindo conservar o peixe durante longas viagens sem recorrer ao sal.
- Final do século XVII – A região de Ålesund começa a utilizar sal antes da secagem, criando o famoso klippfisk. A técnica de salga tinha sido aperfeiçoada por povos bascos, mas encontrou nas condições naturais da Noruega o local ideal para se desenvolver.
- Século XIX – Ålesund transforma-se num dos maiores centros mundiais de produção e exportação de bacalhau, recebendo navios mercantes de vários países europeus.
Hoje, a Noruega continua a ser um dos maiores exportadores mundiais de bacalhau do Atlântico Norte (Gadus morhua) e um dos principais fornecedores do mercado português.
Como chegou o bacalhau aos portugueses?
O bacalhau começou a circular pelas rotas comerciais da Europa medieval muito antes da expansão marítima portuguesa.
No século XV, Portugal já procurava novas zonas de pesca no Atlântico Norte e, no início do século XVI, os irmãos Gaspar e Miguel Corte-Real exploraram a região da Terra Nova.
Embora exista a ideia de que terão sido os Corte-Real a trazer o bacalhau para Portugal, os historiadores são mais cautelosos. O que está bem documentado é que estas expedições ajudaram a confirmar a enorme riqueza piscatória daquela região, onde, nas décadas seguintes, os portugueses desenvolveriam uma intensa atividade ligada à pesca do bacalhau.
Com o passar do tempo, o peixe vindo da Terra Nova e da Gronelândia tornou-se uma presença constante nas embarcações e, mais tarde, nas mesas portuguesas.
Porque é que o bacalhau se tornou tão português?
Apesar da origem nórdica, poucos alimentos são hoje tão associados a Portugal.
Há várias razões para isso.
Durante séculos, a Igreja Católica estabelecia dezenas de dias de abstinência de carne ao longo do ano. O bacalhau, por ser fácil de conservar e transportar, tornou-se uma alternativa ideal.
Ao mesmo tempo, o desenvolvimento das campanhas portuguesas de pesca no Atlântico Norte permitiu aumentar a disponibilidade deste peixe, que acabou por entrar definitivamente na tradição gastronómica nacional.
Não foi por acaso, ganhou o apelido de "fiel amigo" e hoje existem centenas (ou até mesmo 1001) de receitas diferentes espalhadas pelo país.
Uma ligação que continua até aos dias de hoje
Apesar da histórica pesca portuguesa na Terra Nova e na Gronelândia, a ligação à Noruega nunca desapareceu.
Atualmente, uma parte significativa do bacalhau consumido em Portugal continua a ser proveniente da Noruega, país que mantém uma das maiores e mais sustentáveis reservas de Gadus morhua, o bacalhau do Atlântico Norte.
A relação comercial entre os dois países mantém-se viva há vários séculos e faz da Noruega um parceiro essencial para um dos alimentos mais emblemáticos da gastronomia portuguesa.
Afinal, talvez haja mais do que futebol
Enquanto a seleção norueguesa continua a dar que falar no Mundial 2026, vale a pena recordar que Portugal e Noruega já estavam ligados muito antes de existirem campeonatos do mundo.
Uma ligação feita de viagens marítimas, descobertas, comércio e, claro, o bacalhau.
Talvez seja por isso que, quando os portugueses olham para a Noruega, sintam uma simpatia difícil de explicar. Afinal, há mais de mil anos que os dois países partilham uma história que acaba, quase sempre, à mesa.
Resumo
Porque é que a Noruega é importante para Portugal?
Porque foi pioneira na produção de bacalhau seco e continua a ser um dos principais fornecedores de bacalhau para Portugal.
Foram os vikings que inventaram o bacalhau seco?
São considerados os primeiros a utilizar em larga escala a secagem natural do bacalhau ao ar frio, técnica que deu origem ao stockfish.
Os Corte-Real trouxeram o bacalhau para Portugal?
Não há provas disso. As suas viagens ajudaram, isso sim, a conhecer melhor as zonas de pesca da Terra Nova, fundamentais para a história do bacalhau português.
A Noruega ainda fornece bacalhau a Portugal?
Sim. Continua a ser um dos maiores exportadores mundiais de bacalhau e um dos principais fornecedores do mercado português.
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