O essencial

  1. Há várias teorias para explicar porque é que os portugueses comem sardinhas no pão.
  2. Uma delas remonta à Idade Média.
  3. Outra aponta para uma antiga tasca da Ribeira, em Lisboa.
  4. O pão ajuda a absorver a gordura da sardinha e tornou-se parte da tradição.
  5. Hoje é uma das imagens mais emblemáticas dos Santos Populares.


Há cheiros que sabem a verão. E o da sardinha é um deles

Basta passeares por um arraial para perceberes que os Santos Populares chegaram.

O cheiro das sardinhas assadas invade as ruas, mistura-se com o aroma dos manjericos e anuncia noites longas entre amigos, música popular e brindes improvisados.

Mas há um detalhe que quase passa despercebido no meio da festa.

Porque é que, em Portugal, as sardinhas são quase sempre servidas em cima de uma fatia de pão?

A resposta não é totalmente consensual, mas há várias explicações históricas que ajudam a perceber uma das tradições gastronómicas mais antigas do país.


Antes dos pratos, havia pão

Uma das teorias mais aceites remonta à Idade Média.

Segundo historiadores da alimentação e estudos sobre os hábitos alimentares europeus, muito antes de os pratos serem comuns à mesa, era habitual servir carne e peixe sobre pedaços grossos de pão.

Essas fatias funcionavam como uma espécie de "prato comestível", absorvendo os sucos e a gordura dos alimentos. Em algumas regiões europeias, esta base era conhecida como trencher ou "talhador", uma prática documentada em vários estudos de história da alimentação medieval.

Quando os pratos se tornaram mais comuns, muitos destes hábitos desapareceram. Mas algumas tradições populares sobreviveram e a sardinha no pão pode ser uma delas.


A teoria da tasca da Ribeira

Existe ainda uma outra explicação frequentemente associada à origem da sardinha no pão.

Segundo uma tradição popular lisboeta, tudo poderá ter começado numa tasca da zona da Ribeira, em Lisboa, onde as sardinhas eram servidas sobre uma fatia de pão. Nessa versão da história, o pão ajudava a absorver os sucos e a gordura do peixe, tornando a refeição mais prática e económica.

Alguns relatos referem que as sardinhas servidas nesse estabelecimento seriam inicialmente fritas e não assadas. Com o passar do tempo, a ideia de servir o peixe sobre o pão terá passado para as sardinhas assadas que hoje encontramos nos arraiais e festas populares.

Não existem, porém, registos históricos consensuais que permitam confirmar esta origem. Por isso, os investigadores tendem a encará-la como uma tradição oral lisboeta que se foi transmitindo ao longo das gerações.


O pão tem uma função prática

Há também uma explicação menos histórica e mais gastronómica.

Quem já comeu uma sardinha acabada de sair da grelha sabe que ela liberta gordura e sucos intensos durante a assadura.

A fatia de pão colocada por baixo absorve parte dessa gordura, evitando desperdícios e ganhando um sabor muito próprio.

Aliás, para muitos apreciadores, o pão ensopado com os sucos da sardinha é tão importante como o peixe.

Há quem defenda até que a melhor parte da refeição fica mesmo no fim.


Uma tradição ligada aos bairros populares de Lisboa

Outra das teorias frequentemente referidas por investigadores da gastronomia portuguesa aponta para os bairros populares de Lisboa.

Ao longo dos séculos XIX e XX, as sardinhas tornaram-se uma refeição acessível e prática durante as festas de junho.

Servi-las sobre pão permitia comer de pé, na rua, sem necessidade de pratos ou talheres. Era uma solução simples, económica e perfeita para os arraiais que enchiam os bairros históricos da cidade.


E porque é que a comemos à mão?

Se há uma coisa que distingue a sardinha assada é a forma como se come.

Normalmente não há faca nem garfo.

A tradição manda retirar a pele com os dedos, separar cuidadosamente as espinhas e comer diretamente sobre o pão.

É uma refeição informal, partilhada e sem grandes cerimónias, exatamente como os Santos Populares.


A sardinha é muito mais do que um peixe

A ligação entre Portugal e a sardinha vai muito além da gastronomia.

Segundo dados do IPMA, a sardinha teve durante décadas um papel fundamental na alimentação, na economia e na indústria conserveira portuguesa.

Hoje continua a ser um dos maiores símbolos da cultura popular portuguesa e uma presença obrigatória nas festas de junho.



Perguntas frequentes

Porque é que as sardinhas são servidas no pão?

Existem várias explicações. Uma das mais aceites está relacionada com os hábitos alimentares medievais, quando o pão era utilizado para servir refeições. Outra prende-se com a capacidade de absorver a gordura da sardinha.

Comer sardinhas no pão é uma tradição portuguesa?

Sim. É uma das tradições gastronómicas mais associadas aos Santos Populares e às festas de Lisboa.

O pão tem apenas uma função prática?

Não. Além de absorver os sucos da sardinha, tornou-se parte integrante da experiência gastronómica.

Qual é a melhor altura para comer sardinhas?

Tradicionalmente, durante os Santos Populares e as festas de Santo António, São João e São Pedro.


Resumo rápido

- Comer sardinhas no pão é uma tradição antiga em Portugal.
- Uma das explicações remonta aos hábitos alimentares da Idade Média.
- O pão ajuda a absorver a gordura libertada pela sardinha.
- A prática tornou-se popular nos arraiais e bairros históricos de Lisboa.
- Continua a ser uma das imagens mais emblemáticas dos Santos Populares.